Yogindra Das
Om ajñana-timirandhasya jñanañjana-salakaya
Caksur unmilitam yena tasmai Sri-gurave namah
Ofereço minhas respeitosas reverências a meu mestre espiritual que, com o archote conhecimento abriu meus olhos que estavam cegos por causa da escuridão da ignorância.
Foi com muito pesar que ao abrir a edição n. 24 da revista Prana Yoga Journal deparei-me com o artigo intitulado “Demita seus Gurus”. Digo pesar porque tenho todas as edições publicadas e sou assinante da revista, de maneira que jamais imaginava ler tal texto em suas páginas.
É bom que se note que o texto em questão, de autoria de Tijn Touber, foi originalmente publicado na revista Época Negócios. Por certo que vermos tal artigo publicado na revista Época é fato que por si só não causa espécie, embora discorde frontalmente do artigo em questão, já que se trata de uma revista voltada para o mundo dos negócios, em que os atributos de uma vida espiritualizada são de todo dispensáveis. Por outro lado, vermos tal texto publicado numa revista que pretende difundir e estimular a prática do Yoga causa não só estranheza, mas indignação.
Indignação porque quem se debruça no estudo, sabe que o Yoga é um dos seis darshanas da tradição indiana, ou seja, um “ponto de vista” ou sistema filosófico em que o caráter iniciático lhe é intrínseco, ou seja, fundamenta a sua própria existência. Isso é o que nos ensina Mircea Eliade em seu clássico tratado “Yoga: Imortalidade e Liberdade”, quando afirma que “O que caracteriza o Yoga não é só seu lado prático, mas também sua estrutura iniciática. Não se aprende Yoga sozinho; é necessária orientação de um mestre (Guru)” (Eliade, Mircea. Yoga: Imortalidade e Liberdade. Ed. Palas Athena. São Paulo. Pág. 20/21). Tal lição é inteiramente endossada por Georg Feuerstein, um dos maiores estudiosos do Yoga da atualidade, que afirma que “Assim, ao contrário do Yoga ‘pop’ adotado por tantos ocidentais, o verdadeiro Yoga nunca é algo que a pessoa aprende sozinha” (Feuerstein, Georg. A tradição do Yoga. Ed. Pensamento. São Paulo, pág. 41).
Do seu caráter iniciático, portanto, sobreleva-se a figura central do Guru na condução do discípulo ao verdadeiro conhecimento. Aliás, é esse o sentido da palavra Guru, ou seja, “aquela que dissipa as trevas espirituais do discípulo (Feuerstein, op. cit., pág. 44). Outro sentido à palavra Guru é “pesado”, ou seja, o Guru deve ser pesado, sério, porquanto pleno de conhecimento. É o que nos ensina ainda Visvanatha Cakravarti Thakura, mestre espiritual na sucessão discipular consciente de Krishna que apareceu em meados do século dezessete, ao afirmar yasya prasadad bhagavat-prasadah - “Pela misericórdia do mestre espiritual, recebemos a bênção de Krishna”.
Ao reconhecermos, pois, a importância do Guru em nossa prática de Yoga, ingressamos na senda tão claudicante de identificarmos o verdadeiro Guru. Com tantos exemplos ruins com os quais nos deparamos todos os dias, não é de se estranhar certa repulsa pela figura do Guru. É por isso que o parampara, a linha de sucessão discipular à qual se filia o Guru, é tão importante como o primeiro elemento para nos ajudar a identificarmos o Guru fidedigno. É exatamente por essa longa linhagem de mestres e discípulos que se sucederam sem interrupção pelas eras que se perderam no curso da história, e que pela graça do Guru chegou até nós, que podemos separar o verdadeiro do falso Guru. E é isso o que não vemos hoje, ou seja, surgem “gurus” do nada, inventando seus próprios ensinamentos, fazendo suas próprias interpretações dos textos sagrados, baseadas em seus parcos conhecimentos, totalmente desconectados da milenar tradição do Yoga.
Foi isso o que vimos no caso tão veiculado pela imprensa envolvendo o professor de Yoga Cristóvão Oliveira. Não porque tenha ele se auto-intitulado Guru (ainda que do laxante), mas porque se trata de um professor de Yoga sem vínculos com qualquer linha de sucessão discipular, o que por si só torna extremamente arriscada a transmissão de um conhecimento tão profundo como o Yoga. Aliás, Cristóvão Oliveira foi enfático ao afirmar sua indiferença quando foi entrevistado por esta mesma revista Prana Yoga Journal, em sua primeira edição. À pergunta “quem é seu Guru”, Cristóvão responde: “Não tenho. Sou autodidata”. E é exatamente aí que mora o perigo. Ao nos enveredarmos pela sendo do Yoga não podemos prescindir da figura do Guru em nossas vidas, dado a própria natureza do Yoga. Assim, só poderia dar no que deu, a transmissão de conhecimentos sem lastros e desautorizados, que colocou em risco a integridade física e mental das pessoas que nele confiaram.
Dessa forma, a rendição ao Guru para aqueles que se pretendem yogis é condição sine qua non para sua prática. Isso, aliás, é o que encontramos na mais importante escritura do Yoga, o Bhagavad Gita, quando Arjuna aceita o Senhor Krishna como seu mestre espiritual. Diz o verso 7 do capítulo 2 do Gita:
Karpanya-dosopahata-svabhavah
Prcchami tvam dharma-sammudha-cetah
Yac chreyah syan niscitam buhi tan me
Sisyas te ‘ham sadhi mam tvam prapannam
“Agora estou confuso quanto ao meu dever e perdi todas a compostura devido à reles fraqueza. Nesta condição estou Lhe pedindo que me diga com certeza o que é melhor para mim. Aqui estou, seu discípulo e uma alma rendida a Você. Por favor, instrua-me”.
E no significado dado por sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o eminente Acarya–fundador da Sociedade Internacional da Consciência de Krishna, o conhecido Movimento Hare Krishna, pelo qual sintetizou ele a prática de bhakti yoga, principalmente no Ocidente, aprendemos que “Pelo processo da própria natureza o sistema completo das atividades materiais é uma fonte de perplexidades para todos. A cada passo há perplexidade e portanto convém que a pessoa se aproxime de um mestre espiritual genuíno que possa dar-lhe orientação apropriada para alcançar o propósito da vida. Todos os textos védicos aconselham-nos a aproximar de um mestre espiritual autêntico para nos libertar-mos das perplexidades existentes na vida, que surgem contra nossa vontade”.
E é assim, perplexos, que ficamos ao nos depararmos com um artigo que prega a prescindibilidade do Guru, publicado numa importante revista de Yoga, a qual conta em seu conselho editorial com três professores de Yoga que não escondem sua filiação aos seus mestres espirituais. Portanto, embora o artigo por si só não mereça qualquer consideração, já que não é um texto para estudantes sérios do Yoga, o que causa espécie, na verdade, é sua publicação numa revista de Yoga, a qual dessa forma presta um desserviço ao Yoga, maculando sua pureza já tão vilipendiada, e aproximando esse nobre modo de viver do Yoga “pop” denotado por Feuerstein.
Om ajñana-timirandhasya jñanañjana-salakaya
Caksur unmilitam yena tasmai Sri-gurave namah
Ofereço minhas respeitosas reverências a meu mestre espiritual que, com o archote conhecimento abriu meus olhos que estavam cegos por causa da escuridão da ignorância.
Foi com muito pesar que ao abrir a edição n. 24 da revista Prana Yoga Journal deparei-me com o artigo intitulado “Demita seus Gurus”. Digo pesar porque tenho todas as edições publicadas e sou assinante da revista, de maneira que jamais imaginava ler tal texto em suas páginas.
É bom que se note que o texto em questão, de autoria de Tijn Touber, foi originalmente publicado na revista Época Negócios. Por certo que vermos tal artigo publicado na revista Época é fato que por si só não causa espécie, embora discorde frontalmente do artigo em questão, já que se trata de uma revista voltada para o mundo dos negócios, em que os atributos de uma vida espiritualizada são de todo dispensáveis. Por outro lado, vermos tal texto publicado numa revista que pretende difundir e estimular a prática do Yoga causa não só estranheza, mas indignação.
Indignação porque quem se debruça no estudo, sabe que o Yoga é um dos seis darshanas da tradição indiana, ou seja, um “ponto de vista” ou sistema filosófico em que o caráter iniciático lhe é intrínseco, ou seja, fundamenta a sua própria existência. Isso é o que nos ensina Mircea Eliade em seu clássico tratado “Yoga: Imortalidade e Liberdade”, quando afirma que “O que caracteriza o Yoga não é só seu lado prático, mas também sua estrutura iniciática. Não se aprende Yoga sozinho; é necessária orientação de um mestre (Guru)” (Eliade, Mircea. Yoga: Imortalidade e Liberdade. Ed. Palas Athena. São Paulo. Pág. 20/21). Tal lição é inteiramente endossada por Georg Feuerstein, um dos maiores estudiosos do Yoga da atualidade, que afirma que “Assim, ao contrário do Yoga ‘pop’ adotado por tantos ocidentais, o verdadeiro Yoga nunca é algo que a pessoa aprende sozinha” (Feuerstein, Georg. A tradição do Yoga. Ed. Pensamento. São Paulo, pág. 41).
Do seu caráter iniciático, portanto, sobreleva-se a figura central do Guru na condução do discípulo ao verdadeiro conhecimento. Aliás, é esse o sentido da palavra Guru, ou seja, “aquela que dissipa as trevas espirituais do discípulo (Feuerstein, op. cit., pág. 44). Outro sentido à palavra Guru é “pesado”, ou seja, o Guru deve ser pesado, sério, porquanto pleno de conhecimento. É o que nos ensina ainda Visvanatha Cakravarti Thakura, mestre espiritual na sucessão discipular consciente de Krishna que apareceu em meados do século dezessete, ao afirmar yasya prasadad bhagavat-prasadah - “Pela misericórdia do mestre espiritual, recebemos a bênção de Krishna”.
Ao reconhecermos, pois, a importância do Guru em nossa prática de Yoga, ingressamos na senda tão claudicante de identificarmos o verdadeiro Guru. Com tantos exemplos ruins com os quais nos deparamos todos os dias, não é de se estranhar certa repulsa pela figura do Guru. É por isso que o parampara, a linha de sucessão discipular à qual se filia o Guru, é tão importante como o primeiro elemento para nos ajudar a identificarmos o Guru fidedigno. É exatamente por essa longa linhagem de mestres e discípulos que se sucederam sem interrupção pelas eras que se perderam no curso da história, e que pela graça do Guru chegou até nós, que podemos separar o verdadeiro do falso Guru. E é isso o que não vemos hoje, ou seja, surgem “gurus” do nada, inventando seus próprios ensinamentos, fazendo suas próprias interpretações dos textos sagrados, baseadas em seus parcos conhecimentos, totalmente desconectados da milenar tradição do Yoga.
Foi isso o que vimos no caso tão veiculado pela imprensa envolvendo o professor de Yoga Cristóvão Oliveira. Não porque tenha ele se auto-intitulado Guru (ainda que do laxante), mas porque se trata de um professor de Yoga sem vínculos com qualquer linha de sucessão discipular, o que por si só torna extremamente arriscada a transmissão de um conhecimento tão profundo como o Yoga. Aliás, Cristóvão Oliveira foi enfático ao afirmar sua indiferença quando foi entrevistado por esta mesma revista Prana Yoga Journal, em sua primeira edição. À pergunta “quem é seu Guru”, Cristóvão responde: “Não tenho. Sou autodidata”. E é exatamente aí que mora o perigo. Ao nos enveredarmos pela sendo do Yoga não podemos prescindir da figura do Guru em nossas vidas, dado a própria natureza do Yoga. Assim, só poderia dar no que deu, a transmissão de conhecimentos sem lastros e desautorizados, que colocou em risco a integridade física e mental das pessoas que nele confiaram.
Dessa forma, a rendição ao Guru para aqueles que se pretendem yogis é condição sine qua non para sua prática. Isso, aliás, é o que encontramos na mais importante escritura do Yoga, o Bhagavad Gita, quando Arjuna aceita o Senhor Krishna como seu mestre espiritual. Diz o verso 7 do capítulo 2 do Gita:
Karpanya-dosopahata-svabhavah
Prcchami tvam dharma-sammudha-cetah
Yac chreyah syan niscitam buhi tan me
Sisyas te ‘ham sadhi mam tvam prapannam
“Agora estou confuso quanto ao meu dever e perdi todas a compostura devido à reles fraqueza. Nesta condição estou Lhe pedindo que me diga com certeza o que é melhor para mim. Aqui estou, seu discípulo e uma alma rendida a Você. Por favor, instrua-me”.
E no significado dado por sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o eminente Acarya–fundador da Sociedade Internacional da Consciência de Krishna, o conhecido Movimento Hare Krishna, pelo qual sintetizou ele a prática de bhakti yoga, principalmente no Ocidente, aprendemos que “Pelo processo da própria natureza o sistema completo das atividades materiais é uma fonte de perplexidades para todos. A cada passo há perplexidade e portanto convém que a pessoa se aproxime de um mestre espiritual genuíno que possa dar-lhe orientação apropriada para alcançar o propósito da vida. Todos os textos védicos aconselham-nos a aproximar de um mestre espiritual autêntico para nos libertar-mos das perplexidades existentes na vida, que surgem contra nossa vontade”.
E é assim, perplexos, que ficamos ao nos depararmos com um artigo que prega a prescindibilidade do Guru, publicado numa importante revista de Yoga, a qual conta em seu conselho editorial com três professores de Yoga que não escondem sua filiação aos seus mestres espirituais. Portanto, embora o artigo por si só não mereça qualquer consideração, já que não é um texto para estudantes sérios do Yoga, o que causa espécie, na verdade, é sua publicação numa revista de Yoga, a qual dessa forma presta um desserviço ao Yoga, maculando sua pureza já tão vilipendiada, e aproximando esse nobre modo de viver do Yoga “pop” denotado por Feuerstein.
Nenhum comentário:
Postar um comentário