Yogindra Das
Yogas citta-vrtti-nirodhah
“Yoga é a inibição das modificações da mente”.
É isso o que nos ensina Patanjali, em seu clássico “Yoga Sutra”, já no segundo sutra do primeiro capítulo denominado Samadhi Pada. Essa interpretação é feita por Taimni em seu livro “A Ciência do Yoga”. Há outra interessante interpretação no livro “Yoga Sutra de Patanjali – uma abordagem prática”, escrito por Giridhari Das baseado nas traduções e comentários de Srila Hridayananda Das Goswami Acharyadeva, em que ele diz que “Yoga significa controlar as funções da mente”.
Ao nos debruçarmos sobre este sutra, tido por muitos estudiosos como o mais importante de todo o tratado, já que ele, por excelência, define o Yoga, somos obrigados a refletir sobre os fins do Yoga, ou, como quero crer, sobre o fim o Yoga.
Primeiramente, parece-me que se cotejarmos este sutra com as definições do Yoga que encontramos no Bhagavad Gita, poderemos dizer que o sutra aborda na verdade o resultado da prática. Vejamos no verso 48 do capítulo 2 intitulado “Resumo do Gita”, onde lemos:
yoga-sthah kuru karmani
sangam tyaktva dhananjaya
siddhy-asiddhyoh samo bhutva
samatvam yoga ucyate
“Desempenhe seu dever com equilíbrio, ó Arjuna, abandonando todo apego a sucesso ou fracasso. Tal equanimidade chama-se yoga”.
E no verso 50 encontramos:
buddhi-yukto jahatiha
ubhe sukrta-duskrte
tasmad yogaya yujyasva
yogah karmasu kansalam
“Aquele que está ocupado no serviço devocional, livra-se tanto das boas quanto das más ações, mesmo durante esta vida. Portanto, empenhe-se na yoga, que é a arte de todo trabalho”.
Com efeito, verificamos no sutra de Patanjali, que sua definição de Yoga fica no plano mental ou psicológico, ou seja, Patanjali toma o Yoga num sentido mais restrito de controle da mente. Por outro lado, vemos que no Bhagavad Gita, Krishna vai além, pois estabelece o Yoga como um processo de união, de conexão com o Supremo, ou seja, estabelece definitivamente o processo de bhakti yoga, no qual nos rendemos ao Senhor em serviço devocional amoroso. “O processo de unir-se ao Supremo chama-se yoga”, é o que nos ensina Srila Prabhupada logo no começo de seu significado dado ao verso 3 do capítulo 6, do Gita. E é exatamente isso que extraímos do termo buddhi-yukto, acima citado, derivado de buddhi yoga, que significa ação em consciência de Krishna. Isso porque buddhi significa inteligência e o termo yoga é tomado aí no sentido de elevação mística, de maneira que a adoção do serviço devocional em plena consciência de Krishna é a forma mais completa de yoga, onde atingimos a forma mais elevada de perfeição da vida. Portanto, ao adotarmos o processo de bhakti yoga proposto por Krishna em todo o Bhagavad Gita descortinamos um novo horizonte, pois saímos da restrita área do controle da mente proposto por Patanjali e entramos na imensidão de uma prática eminentemente espiritual.
Por isso, ouso afirmar que a inibição das modificações da mente ocorre mais como resultado da prática do Yoga, na qual nos devotamos ao Senhor, na qual nos aplicamos na ação desinteressada, na qual buscamos agir com equanimidade, transcendendo assim os pares de opostos que definem a existência material. Assim, se tomarmos o Yoga como a inibição das modificações da mente, pura e simplesmente, e perseguirmos tal objetivo seguindo linha reta, estaremos fadados ao fracasso, pois todos sabemos o quanto a mente necessita gritar seus inúmeros pensamentos.
E nesse ponto somos levados a perguntar: mas controlar as funções da mente para que? É o próprio Yoga Sutra, assim como o Bhagavad Gita que nos dão a resposta.
No Yoga Sutra temos já no verso 3 que:
Tada drastuh svarupe ‘vasthanam
“Então o observador estará situado em sua natureza real”.
E no Bhagavad Gita ouvimos Krishna dizendo:
sarva-dharman parityajya
mam ekam saranam vraja
aham tvam sarva papebhyo
moksayisyami ma sucah
“Abandone todas as variedades de religião e simplesmente renda-se a mim. Eu o libertarei de todas as reações pecaminosas. Não tema” (verso 66 do capítulo 18).
Ou seja, controlamos os sentidos para nos estabelecermos em nossa verdadeira natureza, que por sua vez consiste em transcender todo o falso apego e nos rendermos completamente a Deus. Dessa forma, não há outro fim no Yoga que não o fim espiritual de rendição ao Supremo, o que somente ocorre quando nos desvencilhamos do peso do ego, pois não há renúncia, não há entrega, se ainda acreditarmos que somos o corpo, a mente, os pensamentos, as emoções... Enfim, quando abandonamos toda a idéia de satisfação dos próprios sentidos e buscamos, através do serviço devocional amoroso, a satisfação dos sentidos da Suprema Personalidade de Deus, então já não há movimentos na mente e o verdadeiro estado de Yoga finalmente se estabelece.
Portanto, não é possível dissociarmos do Yoga o seu aspecto espiritual, dado que lhe é intrínseco e por si só define o próprio Yoga. Tal como nos ensina Feuerstein em seu livro “Uma Visão Profunda do Yoga” - “É certo que muitos praticantes ocidentais (e até orientais) também não tem uma consciência particular da dimensão espiritual do Yoga. Sem ela, porém, o Yoga não chega a ser mais que um passatempo”. E é como passatempo que infelizmente vemos alguns praticantes tomarem o Yoga nos dias de hoje. Vão para suas práticas como quem vai à natação. Daí a importância de separarmos o joio do trigo, ou seja, de um lado a conseqüências naturais da prática, de outro o objetivo do Yoga.
Não nego que o Yoga melhore a saúde, traga relaxamento, melhore a performance de atletas, tonifique os músculos e nos faça mais felizes. Mas essas são as conseqüências naturais da prática, as quais não podem ser confundidas com o fim do Yoga, pois, ainda estaremos aí nos domínios das dualidades: saúde-doença, felicidade-tristeza, tensão-relaxamento, muito distantes, portanto, do estado absoluto ao qual o Yoga nos pretende levar.
Dessa forma, é dever de todo professor restabelecer o fim último do Yoga como prática espiritual, que traz como conseqüência natural o bem estar físico e mental.
Afinal como tão bem nos ensina Srila Prabhupada, ao regarmos a raiz da árvore alimentamos todos os seus galhos.
Yogas citta-vrtti-nirodhah
“Yoga é a inibição das modificações da mente”.
É isso o que nos ensina Patanjali, em seu clássico “Yoga Sutra”, já no segundo sutra do primeiro capítulo denominado Samadhi Pada. Essa interpretação é feita por Taimni em seu livro “A Ciência do Yoga”. Há outra interessante interpretação no livro “Yoga Sutra de Patanjali – uma abordagem prática”, escrito por Giridhari Das baseado nas traduções e comentários de Srila Hridayananda Das Goswami Acharyadeva, em que ele diz que “Yoga significa controlar as funções da mente”.
Ao nos debruçarmos sobre este sutra, tido por muitos estudiosos como o mais importante de todo o tratado, já que ele, por excelência, define o Yoga, somos obrigados a refletir sobre os fins do Yoga, ou, como quero crer, sobre o fim o Yoga.
Primeiramente, parece-me que se cotejarmos este sutra com as definições do Yoga que encontramos no Bhagavad Gita, poderemos dizer que o sutra aborda na verdade o resultado da prática. Vejamos no verso 48 do capítulo 2 intitulado “Resumo do Gita”, onde lemos:
yoga-sthah kuru karmani
sangam tyaktva dhananjaya
siddhy-asiddhyoh samo bhutva
samatvam yoga ucyate
“Desempenhe seu dever com equilíbrio, ó Arjuna, abandonando todo apego a sucesso ou fracasso. Tal equanimidade chama-se yoga”.
E no verso 50 encontramos:
buddhi-yukto jahatiha
ubhe sukrta-duskrte
tasmad yogaya yujyasva
yogah karmasu kansalam
“Aquele que está ocupado no serviço devocional, livra-se tanto das boas quanto das más ações, mesmo durante esta vida. Portanto, empenhe-se na yoga, que é a arte de todo trabalho”.
Com efeito, verificamos no sutra de Patanjali, que sua definição de Yoga fica no plano mental ou psicológico, ou seja, Patanjali toma o Yoga num sentido mais restrito de controle da mente. Por outro lado, vemos que no Bhagavad Gita, Krishna vai além, pois estabelece o Yoga como um processo de união, de conexão com o Supremo, ou seja, estabelece definitivamente o processo de bhakti yoga, no qual nos rendemos ao Senhor em serviço devocional amoroso. “O processo de unir-se ao Supremo chama-se yoga”, é o que nos ensina Srila Prabhupada logo no começo de seu significado dado ao verso 3 do capítulo 6, do Gita. E é exatamente isso que extraímos do termo buddhi-yukto, acima citado, derivado de buddhi yoga, que significa ação em consciência de Krishna. Isso porque buddhi significa inteligência e o termo yoga é tomado aí no sentido de elevação mística, de maneira que a adoção do serviço devocional em plena consciência de Krishna é a forma mais completa de yoga, onde atingimos a forma mais elevada de perfeição da vida. Portanto, ao adotarmos o processo de bhakti yoga proposto por Krishna em todo o Bhagavad Gita descortinamos um novo horizonte, pois saímos da restrita área do controle da mente proposto por Patanjali e entramos na imensidão de uma prática eminentemente espiritual.
Por isso, ouso afirmar que a inibição das modificações da mente ocorre mais como resultado da prática do Yoga, na qual nos devotamos ao Senhor, na qual nos aplicamos na ação desinteressada, na qual buscamos agir com equanimidade, transcendendo assim os pares de opostos que definem a existência material. Assim, se tomarmos o Yoga como a inibição das modificações da mente, pura e simplesmente, e perseguirmos tal objetivo seguindo linha reta, estaremos fadados ao fracasso, pois todos sabemos o quanto a mente necessita gritar seus inúmeros pensamentos.
E nesse ponto somos levados a perguntar: mas controlar as funções da mente para que? É o próprio Yoga Sutra, assim como o Bhagavad Gita que nos dão a resposta.
No Yoga Sutra temos já no verso 3 que:
Tada drastuh svarupe ‘vasthanam
“Então o observador estará situado em sua natureza real”.
E no Bhagavad Gita ouvimos Krishna dizendo:
sarva-dharman parityajya
mam ekam saranam vraja
aham tvam sarva papebhyo
moksayisyami ma sucah
“Abandone todas as variedades de religião e simplesmente renda-se a mim. Eu o libertarei de todas as reações pecaminosas. Não tema” (verso 66 do capítulo 18).
Ou seja, controlamos os sentidos para nos estabelecermos em nossa verdadeira natureza, que por sua vez consiste em transcender todo o falso apego e nos rendermos completamente a Deus. Dessa forma, não há outro fim no Yoga que não o fim espiritual de rendição ao Supremo, o que somente ocorre quando nos desvencilhamos do peso do ego, pois não há renúncia, não há entrega, se ainda acreditarmos que somos o corpo, a mente, os pensamentos, as emoções... Enfim, quando abandonamos toda a idéia de satisfação dos próprios sentidos e buscamos, através do serviço devocional amoroso, a satisfação dos sentidos da Suprema Personalidade de Deus, então já não há movimentos na mente e o verdadeiro estado de Yoga finalmente se estabelece.
Portanto, não é possível dissociarmos do Yoga o seu aspecto espiritual, dado que lhe é intrínseco e por si só define o próprio Yoga. Tal como nos ensina Feuerstein em seu livro “Uma Visão Profunda do Yoga” - “É certo que muitos praticantes ocidentais (e até orientais) também não tem uma consciência particular da dimensão espiritual do Yoga. Sem ela, porém, o Yoga não chega a ser mais que um passatempo”. E é como passatempo que infelizmente vemos alguns praticantes tomarem o Yoga nos dias de hoje. Vão para suas práticas como quem vai à natação. Daí a importância de separarmos o joio do trigo, ou seja, de um lado a conseqüências naturais da prática, de outro o objetivo do Yoga.
Não nego que o Yoga melhore a saúde, traga relaxamento, melhore a performance de atletas, tonifique os músculos e nos faça mais felizes. Mas essas são as conseqüências naturais da prática, as quais não podem ser confundidas com o fim do Yoga, pois, ainda estaremos aí nos domínios das dualidades: saúde-doença, felicidade-tristeza, tensão-relaxamento, muito distantes, portanto, do estado absoluto ao qual o Yoga nos pretende levar.
Dessa forma, é dever de todo professor restabelecer o fim último do Yoga como prática espiritual, que traz como conseqüência natural o bem estar físico e mental.
Afinal como tão bem nos ensina Srila Prabhupada, ao regarmos a raiz da árvore alimentamos todos os seus galhos.