sábado, 21 de março de 2009

O Yoga e seus "Fins"

Yogindra Das




Yogas citta-vrtti-nirodhah

“Yoga é a inibição das modificações da mente”.

É isso o que nos ensina Patanjali, em seu clássico “Yoga Sutra”, já no segundo sutra do primeiro capítulo denominado Samadhi Pada. Essa interpretação é feita por Taimni em seu livro “A Ciência do Yoga”. Há outra interessante interpretação no livro “Yoga Sutra de Patanjali – uma abordagem prática”, escrito por Giridhari Das baseado nas traduções e comentários de Srila Hridayananda Das Goswami Acharyadeva, em que ele diz que “Yoga significa controlar as funções da mente”.
Ao nos debruçarmos sobre este sutra, tido por muitos estudiosos como o mais importante de todo o tratado, já que ele, por excelência, define o Yoga, somos obrigados a refletir sobre os fins do Yoga, ou, como quero crer, sobre o fim o Yoga.
Primeiramente, parece-me que se cotejarmos este sutra com as definições do Yoga que encontramos no Bhagavad Gita, poderemos dizer que o sutra aborda na verdade o resultado da prática. Vejamos no verso 48 do capítulo 2 intitulado “Resumo do Gita”, onde lemos:

yoga-sthah kuru karmani
sangam tyaktva dhananjaya
siddhy-asiddhyoh samo bhutva
samatvam yoga ucyate

“Desempenhe seu dever com equilíbrio, ó Arjuna, abandonando todo apego a sucesso ou fracasso. Tal equanimidade chama-se yoga”.

E no verso 50 encontramos:

buddhi-yukto jahatiha
ubhe sukrta-duskrte
tasmad yogaya yujyasva
yogah karmasu kansalam

“Aquele que está ocupado no serviço devocional, livra-se tanto das boas quanto das más ações, mesmo durante esta vida. Portanto, empenhe-se na yoga, que é a arte de todo trabalho”.

Com efeito, verificamos no sutra de Patanjali, que sua definição de Yoga fica no plano mental ou psicológico, ou seja, Patanjali toma o Yoga num sentido mais restrito de controle da mente. Por outro lado, vemos que no Bhagavad Gita, Krishna vai além, pois estabelece o Yoga como um processo de união, de conexão com o Supremo, ou seja, estabelece definitivamente o processo de bhakti yoga, no qual nos rendemos ao Senhor em serviço devocional amoroso. “O processo de unir-se ao Supremo chama-se yoga”, é o que nos ensina Srila Prabhupada logo no começo de seu significado dado ao verso 3 do capítulo 6, do Gita. E é exatamente isso que extraímos do termo buddhi-yukto, acima citado, derivado de buddhi yoga, que significa ação em consciência de Krishna. Isso porque buddhi significa inteligência e o termo yoga é tomado aí no sentido de elevação mística, de maneira que a adoção do serviço devocional em plena consciência de Krishna é a forma mais completa de yoga, onde atingimos a forma mais elevada de perfeição da vida. Portanto, ao adotarmos o processo de bhakti yoga proposto por Krishna em todo o Bhagavad Gita descortinamos um novo horizonte, pois saímos da restrita área do controle da mente proposto por Patanjali e entramos na imensidão de uma prática eminentemente espiritual.
Por isso, ouso afirmar que a inibição das modificações da mente ocorre mais como resultado da prática do Yoga, na qual nos devotamos ao Senhor, na qual nos aplicamos na ação desinteressada, na qual buscamos agir com equanimidade, transcendendo assim os pares de opostos que definem a existência material. Assim, se tomarmos o Yoga como a inibição das modificações da mente, pura e simplesmente, e perseguirmos tal objetivo seguindo linha reta, estaremos fadados ao fracasso, pois todos sabemos o quanto a mente necessita gritar seus inúmeros pensamentos.
E nesse ponto somos levados a perguntar: mas controlar as funções da mente para que? É o próprio Yoga Sutra, assim como o Bhagavad Gita que nos dão a resposta.
No Yoga Sutra temos já no verso 3 que:

Tada drastuh svarupe ‘vasthanam

“Então o observador estará situado em sua natureza real”.

E no Bhagavad Gita ouvimos Krishna dizendo:

sarva-dharman parityajya
mam ekam saranam vraja
aham tvam sarva papebhyo
moksayisyami ma sucah

“Abandone todas as variedades de religião e simplesmente renda-se a mim. Eu o libertarei de todas as reações pecaminosas. Não tema” (verso 66 do capítulo 18).

Ou seja, controlamos os sentidos para nos estabelecermos em nossa verdadeira natureza, que por sua vez consiste em transcender todo o falso apego e nos rendermos completamente a Deus. Dessa forma, não há outro fim no Yoga que não o fim espiritual de rendição ao Supremo, o que somente ocorre quando nos desvencilhamos do peso do ego, pois não há renúncia, não há entrega, se ainda acreditarmos que somos o corpo, a mente, os pensamentos, as emoções... Enfim, quando abandonamos toda a idéia de satisfação dos próprios sentidos e buscamos, através do serviço devocional amoroso, a satisfação dos sentidos da Suprema Personalidade de Deus, então já não há movimentos na mente e o verdadeiro estado de Yoga finalmente se estabelece.
Portanto, não é possível dissociarmos do Yoga o seu aspecto espiritual, dado que lhe é intrínseco e por si só define o próprio Yoga. Tal como nos ensina Feuerstein em seu livro “Uma Visão Profunda do Yoga” - “É certo que muitos praticantes ocidentais (e até orientais) também não tem uma consciência particular da dimensão espiritual do Yoga. Sem ela, porém, o Yoga não chega a ser mais que um passatempo”. E é como passatempo que infelizmente vemos alguns praticantes tomarem o Yoga nos dias de hoje. Vão para suas práticas como quem vai à natação. Daí a importância de separarmos o joio do trigo, ou seja, de um lado a conseqüências naturais da prática, de outro o objetivo do Yoga.
Não nego que o Yoga melhore a saúde, traga relaxamento, melhore a performance de atletas, tonifique os músculos e nos faça mais felizes. Mas essas são as conseqüências naturais da prática, as quais não podem ser confundidas com o fim do Yoga, pois, ainda estaremos aí nos domínios das dualidades: saúde-doença, felicidade-tristeza, tensão-relaxamento, muito distantes, portanto, do estado absoluto ao qual o Yoga nos pretende levar.
Dessa forma, é dever de todo professor restabelecer o fim último do Yoga como prática espiritual, que traz como conseqüência natural o bem estar físico e mental.
Afinal como tão bem nos ensina Srila Prabhupada, ao regarmos a raiz da árvore alimentamos todos os seus galhos.

domingo, 8 de março de 2009

Vegetarianismo além do Ego

Yogindra Das

Já não há mais desculpas. Livros, revistas, documentários, evidenciam as inúmeras vantagens do vegetarianismo. Sejam elas tomadas do ponto de vista do bem estar físico, da ética ou da espiritualidade.
Sendo assim, quando surge o debate, no qual os argumentos favoráveis ao consumo de carne explodem diante das várias assertivas de uma dieta vegetariana, baseada principalmente no respeito às espécies diferentes da nossa, chegamos ao último apelo, ao último suspiro: “como carne porque gosto”.
E o que é isso, senão olhar para o próprio umbigo, satisfazer acima de tudo o paladar, esse ditador voraz, sem lembramos que para isso damos cabo da vida de outro ser. O que é isso senão esquecer que não somos o centro do universo, que o planeta não é nossa exclusiva propriedade, mas um presente dado a todos os seres para que nele convivam pacificamente.
Se olhássemos um pouco à nossa volta, se apenas levantássemos um pouco nossa cabeça, se nosso ego não fosse tão inflado a ponto de acharmos que tudo é feito somente para nosso conforto e comodidade, certamente chegaríamos à conclusão de que é preciso fazer algo, que é preciso mudar, e que a mudança começa por aquilo que levamos à boca.
Namastê.

Yoga sem Guru

Yogindra Das



Om ajñana-timirandhasya jñanañjana-salakaya
Caksur unmilitam yena tasmai Sri-gurave namah

Ofereço minhas respeitosas reverências a meu mestre espiritual que, com o archote conhecimento abriu meus olhos que estavam cegos por causa da escuridão da ignorância.


Foi com muito pesar que ao abrir a edição n. 24 da revista Prana Yoga Journal deparei-me com o artigo intitulado “Demita seus Gurus”. Digo pesar porque tenho todas as edições publicadas e sou assinante da revista, de maneira que jamais imaginava ler tal texto em suas páginas.

É bom que se note que o texto em questão, de autoria de Tijn Touber, foi originalmente publicado na revista Época Negócios. Por certo que vermos tal artigo publicado na revista Época é fato que por si só não causa espécie, embora discorde frontalmente do artigo em questão, já que se trata de uma revista voltada para o mundo dos negócios, em que os atributos de uma vida espiritualizada são de todo dispensáveis. Por outro lado, vermos tal texto publicado numa revista que pretende difundir e estimular a prática do Yoga causa não só estranheza, mas indignação.

Indignação porque quem se debruça no estudo, sabe que o Yoga é um dos seis darshanas da tradição indiana, ou seja, um “ponto de vista” ou sistema filosófico em que o caráter iniciático lhe é intrínseco, ou seja, fundamenta a sua própria existência. Isso é o que nos ensina Mircea Eliade em seu clássico tratado “Yoga: Imortalidade e Liberdade”, quando afirma que “O que caracteriza o Yoga não é só seu lado prático, mas também sua estrutura iniciática. Não se aprende Yoga sozinho; é necessária orientação de um mestre (Guru)” (Eliade, Mircea. Yoga: Imortalidade e Liberdade. Ed. Palas Athena. São Paulo. Pág. 20/21). Tal lição é inteiramente endossada por Georg Feuerstein, um dos maiores estudiosos do Yoga da atualidade, que afirma que “Assim, ao contrário do Yoga ‘pop’ adotado por tantos ocidentais, o verdadeiro Yoga nunca é algo que a pessoa aprende sozinha” (Feuerstein, Georg. A tradição do Yoga. Ed. Pensamento. São Paulo, pág. 41).

Do seu caráter iniciático, portanto, sobreleva-se a figura central do Guru na condução do discípulo ao verdadeiro conhecimento. Aliás, é esse o sentido da palavra Guru, ou seja, “aquela que dissipa as trevas espirituais do discípulo (Feuerstein, op. cit., pág. 44). Outro sentido à palavra Guru é “pesado”, ou seja, o Guru deve ser pesado, sério, porquanto pleno de conhecimento. É o que nos ensina ainda Visvanatha Cakravarti Thakura, mestre espiritual na sucessão discipular consciente de Krishna que apareceu em meados do século dezessete, ao afirmar yasya prasadad bhagavat-prasadah - “Pela misericórdia do mestre espiritual, recebemos a bênção de Krishna”.

Ao reconhecermos, pois, a importância do Guru em nossa prática de Yoga, ingressamos na senda tão claudicante de identificarmos o verdadeiro Guru. Com tantos exemplos ruins com os quais nos deparamos todos os dias, não é de se estranhar certa repulsa pela figura do Guru. É por isso que o parampara, a linha de sucessão discipular à qual se filia o Guru, é tão importante como o primeiro elemento para nos ajudar a identificarmos o Guru fidedigno. É exatamente por essa longa linhagem de mestres e discípulos que se sucederam sem interrupção pelas eras que se perderam no curso da história, e que pela graça do Guru chegou até nós, que podemos separar o verdadeiro do falso Guru. E é isso o que não vemos hoje, ou seja, surgem “gurus” do nada, inventando seus próprios ensinamentos, fazendo suas próprias interpretações dos textos sagrados, baseadas em seus parcos conhecimentos, totalmente desconectados da milenar tradição do Yoga.

Foi isso o que vimos no caso tão veiculado pela imprensa envolvendo o professor de Yoga Cristóvão Oliveira. Não porque tenha ele se auto-intitulado Guru (ainda que do laxante), mas porque se trata de um professor de Yoga sem vínculos com qualquer linha de sucessão discipular, o que por si só torna extremamente arriscada a transmissão de um conhecimento tão profundo como o Yoga. Aliás, Cristóvão Oliveira foi enfático ao afirmar sua indiferença quando foi entrevistado por esta mesma revista Prana Yoga Journal, em sua primeira edição. À pergunta “quem é seu Guru”, Cristóvão responde: “Não tenho. Sou autodidata”. E é exatamente aí que mora o perigo. Ao nos enveredarmos pela sendo do Yoga não podemos prescindir da figura do Guru em nossas vidas, dado a própria natureza do Yoga. Assim, só poderia dar no que deu, a transmissão de conhecimentos sem lastros e desautorizados, que colocou em risco a integridade física e mental das pessoas que nele confiaram.

Dessa forma, a rendição ao Guru para aqueles que se pretendem yogis é condição sine qua non para sua prática. Isso, aliás, é o que encontramos na mais importante escritura do Yoga, o Bhagavad Gita, quando Arjuna aceita o Senhor Krishna como seu mestre espiritual. Diz o verso 7 do capítulo 2 do Gita:

Karpanya-dosopahata-svabhavah
Prcchami tvam dharma-sammudha-cetah
Yac chreyah syan niscitam buhi tan me
Sisyas te ‘ham sadhi mam tvam prapannam

“Agora estou confuso quanto ao meu dever e perdi todas a compostura devido à reles fraqueza. Nesta condição estou Lhe pedindo que me diga com certeza o que é melhor para mim. Aqui estou, seu discípulo e uma alma rendida a Você. Por favor, instrua-me”.

E no significado dado por sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o eminente Acarya–fundador da Sociedade Internacional da Consciência de Krishna, o conhecido Movimento Hare Krishna, pelo qual sintetizou ele a prática de bhakti yoga, principalmente no Ocidente, aprendemos que “Pelo processo da própria natureza o sistema completo das atividades materiais é uma fonte de perplexidades para todos. A cada passo há perplexidade e portanto convém que a pessoa se aproxime de um mestre espiritual genuíno que possa dar-lhe orientação apropriada para alcançar o propósito da vida. Todos os textos védicos aconselham-nos a aproximar de um mestre espiritual autêntico para nos libertar-mos das perplexidades existentes na vida, que surgem contra nossa vontade”.

E é assim, perplexos, que ficamos ao nos depararmos com um artigo que prega a prescindibilidade do Guru, publicado numa importante revista de Yoga, a qual conta em seu conselho editorial com três professores de Yoga que não escondem sua filiação aos seus mestres espirituais. Portanto, embora o artigo por si só não mereça qualquer consideração, já que não é um texto para estudantes sérios do Yoga, o que causa espécie, na verdade, é sua publicação numa revista de Yoga, a qual dessa forma presta um desserviço ao Yoga, maculando sua pureza já tão vilipendiada, e aproximando esse nobre modo de viver do Yoga “pop” denotado por Feuerstein.